Torrey Peters e Tatiana Vasconcellos: Debate on-line

Ontem, dia 19/01, a jornalista Tatiana Vasconcellos entrevistou Torrey Peters, autora do romance Destransição, baby, em live transmitida no YouTube e no Facebook da Tordesilhas Livros. Pela obra, Torrey foi indicada ao prêmio Women’s Prize for Fiction e esteve presente na lista dos 100 livros mais notáveis de 2021 do New York Times.

O papo contou com tradução simultânea e está salvo para quem perdeu ou gostaria de rever:

YouTube: https://bit.ly/LiveTorreyPeters

Facebook: https://bit.ly/FaceLiveTorreyPeters

Ao final da live, Torrey Peters leu um trecho de Destransição, baby que, agora, disponibilizamos a todos em português:

“[…] Num impulso de última hora, Reese decidiu ir ver a apresentação semanal de sua amiga Thalia no Dynamite, um entre diversos barzinhos LGBTQ do North Brooklyn que são geridos pela mesma família de héteros suspeitos. Thalia era uma drag queen que virou transexual, uma das primeiras a se converter no Grande Iluminismo Drag, quando um quórum significativo de divas do Brooklyn saiu do armário como trans, começou a aplicar estrogênio e renunciou ao seu passado de homem gay: ato cujas consequências as levaram a misandria, já que os twinks desesperadamente lindos que costumavam dormir com elas pararam de mostrar interesse. Thalia tem uma apresentação chamada Controlando a raiva, em que ela toca um dubstep tropical para deixar todo mundo tranquilo, então interrompe suas vibrações de tranquilidade de hora em hora com sessões de perguntas e respostas, se propondo a dar conselhos de vida aos vários twinks que formam sua fan base, agora sexualmente indisponíveis, então os xinga pela sua idiotice com arengas profundas e profanas. Reese se sentia segura de que, para ela, essa era a forma mais divertida de se passar uma noite de terça.

Nessa noite, um dos twinks pergunta sobre a divisão de tarefas em um relacionamento – o twink descobriu que, em seu relacionamento com um macho dominante, ele faz uma parte muito maior do trabalho doméstico, então será que ele poderia usar argumentos feministas para reivindicar uma parcela mais igualitária das coisas da casa? Thalia responde que não, que ele é uma bichinha molenga e que, em meio a falta de verdadeiros ativos dominantes, é melhor que ele comece a esfregar o piso se quiser manter o seu homem feliz. No entanto, Thalia acrescenta, a premissa inteira da pergunta deve ser rejeitada, porque não existe algo como um puro macho ativo – todo mundo mais cedo ou mais tarde quer ter algo enfiado na bunda, porque essa e a natureza de se ter uma bunda –, e, quando chegar o momento em que as coisas forem verdadeiramente igualitárias na cama, elas também o serão no trabalho doméstico. Os twinks dão risadinhas alegres, mas Thalia os repreende e exige que lhe deem moedas para ela poder ir lavar roupa, porque os pais dela cortaram seu dinheiro por ela ter gritado com eles no telefone. Para enfatizar, ela balança o baldinho de gorjeta do pedestal que também é a cabine do DJ, de onde ela reina, então entra em um de seus temas favoritos: seus pais. Seus pais são boas pessoas que sofrem há muito tempo, ela conta aos twinks reunidos, e essas boas pessoas que sofrem há tanto tempo ainda a sustentam aos vinte e nove anos de idade, porque ela é uma pirralha mimada que nunca teve um emprego – um show semanal num bar LGBTQ não conta –, o que é vergonhoso para ela. E o que ela faz para retribuir a generosidade dos pais? As palavras saem ao microfone com tamanha acidez que o som estala com as consoantes, e ela pausa por um momento antes de imitar um discurso público ultrajado para responder sua própria pergunta. Ela muda de gênero! Só para paralisá-los e confundi-los! E agora ela grita com eles no telefone e desliga na cara deles se eles a chamam no masculino! E isso que eles ganham por sustentar uma criança com tendências artísticas! Mas o que mais eles esperavam? Eles por acaso achavam que podiam simplesmente deixar o filho usar calças capri sem que houvesse consequências?

— E sabem qual é a pior parte? — Thalia exige de seus twinks. — A pior parte é que a maioria dos pais consegue, mais cedo ou mais tarde, ter um momento de redenção, quando os filhos viram pais e reavaliam a própria infância com olhos de pai ou mãe e admitem, arrependidos: papai sempre soube o que era melhor pra mim. E mamãe era tão generosa! Tão gentil! E também tão linda e jovem! Mas não os meus pais — Thalia conclui com uma risada. — Porque, depois de tantos hormônios, agora eu sou estéril! Eu roubei a redenção deles!

Os garotos bonitos em bermudinhas desfiadas, todos alinhados no bar, riem. Thalia aperta os olhos para eles de forma teatral.

— Do que é que estão rindo? Se vocês estão aqui me ouvindo — ela adverte —, provavelmente quer dizer que vocês também são uma decepção pros pais de vocês! Se vocês gostam dessa minha coisa toda e não entraram aqui do nada vindos da rua, há uma probabilidade alta de que vocês também sejam uns degenerados que nunca vão dar um neto pros seus pais. — Thalia cospe o chiclete em um gesto de irritação, então segue a pergunta seguinte sem se abalar.

Ela deu um vale-bebida para Reese, e Reese ri com alegria em cada um dos seus sermões, bebericando a Corona gratuita. Reese adora os pais de Thalia, ou ao menos a imagem que Thalia passa deles. Reese sente empatia por eles. Eles cometem todos os erros clássicos de pais de trans, mas, ao contrário dos pais de Reese, parecem verdadeira e profundamente amar a sua filha, por mais que a achem desconcertante e confusa. Reese empatiza: Thalia é profundamente amável e talentosa e mimada e capaz de raivas inexplicáveis – o que faz com que ela seja uma das garotas mais cativantes que Reese conhece. Por casualidade, Thalia também é uma das musicistas mais talentosas da cidade, apesar de recusar quase todas as ofertas para se apresentar, como a prima donna que é – a generosidade de seus pais a permite evitar o trabalho de formiguinha das performances pequenas, que músicos menores aceitam em primeiro lugar para poder comer e, em segundo, para ganhar fãs. Ainda assim, apesar de Thalia raramente se apresentar, metade dos twinks que a seguem gosta tanto de sua música que se contenta em vê-la gritando com eles num bar porque é o mais perto que conseguem chegar de ouvi-la cantando.

Os talentos de Thalia explicam apenas uma parte do profundo afeto que Reese tem por ela. Reese conhece muita gente talentosa – metade das mulheres trans no Brooklyn vive em um estado de perpetua pré-celebridade, esperando um merecido reconhecimento que nunca vira. Não, mais do que apenas achar Thalia cativante, Reese secreta e orgulhosamente a vê como sua filha trans. Reese não fala disso a quase ninguém, pois teria horror de assumir crédito em público por como Thalia havia se tornado uma pessoa equilibrada, por mais que, lá no fundo, Reese acredite merecer uma parcela considerável desse crédito.  

Elas se conheceram nos primeiros meses da transição de Thalia, justo quando ela entrava no desabrochar completo de sua segunda puberdade, justo quando as mudanças em seu corpo começavam a aparecer, justo quando, a cada noite, o momentoso pêndulo das variações de humor estrogênicas pendia ao desespero, justo quando Thalia entrava no período da transição em que chorava por causa da Lua e quebrava espelhos em autodesprezo e se apaixonava – amor real, amor presente – pela primeira vez. Quantas noites Reese havia sentado com ela para oferecer conselhos, tanto severos quanto carinhosos, enquanto Thalia se contorcia como uma tartaruga sem casco, sua pele mole, carente de armadura, ferida pelas novas humilhações da vida como transexual? Quantas vezes Reese havia ido ao apartamento de Thalia e lhe dado colo enquanto ela chorava, tentando aconselhá-la sem dizer como agir nem soar condescendente nem criar uma hierarquia na amizade, porque, por mais que Reese quisesse chacoalhar Thalia e mandá-la crescer logo e parar de resmungar, Reese a admirava e admirava todas as habilidades e sonhos que ela nutria – aqueles mesmos sonhos e esperanças dos quais a própria Reese já desistira. E há algo mais materno que isso? Esperar que sua filha tenha as oportunidades que você nunca se deu – ou que ninguém nunca deu a você?”