Elefantes assassinos também precisam de carinho

Por Caio C. Maia (*)

Escrever um texto como este – comentando e recomendando a leitura de um livro – é um tanto contraditório para mim enquanto leitor, por duas razões. A primeira é que, quando me interesso por um texto de ficção, eu busco saber o mínimo possível sobre a obra: gosto que a narrativa em si me apresente a trama e os personagens, na ordem em que o autor, autora ou autore pretendeu que eu soubesse dos detalhes. Com livro, tudo para mim é spoiler. (Se você for como eu, pule para o último parágrafo.)

A segunda razão nos leva a um ponto fundamental do livro: provavelmente não sou o público que Torrey Peters tinha em mente quando idealizou Destransição, Baby, um livro em que a mulheridade e o ser mulher estão no centro das reflexões o tempo todo. Citando o pesquisador Jack Halberstam, autor trans recentemente traduzido no Brasil, digamos que, apesar dos esforços, eu fracassei em ser mulher, e fui tentar outra coisa da vida.

Veja bem, não é que Destransição, baby seja um livro que vai interessar apenas às mulheres trans. Já de cara, ao abrir o livro, vemos que Torrey Peters, ela mesma uma mulher trans, dedica o livro “às mulheres cis divorciadas”. Ter passado por um divórcio é algo que duas das protagonistas da trama, Reese, uma mulher trans, e Katrina, uma mulher cis, têm em comum. (Outro ponto que as conecta é Ames, que vivera anos – boa parte deles com Reese – como mulher trans, até decidir voltar a se apresentar ao mundo como homem… e acabar engravidando sua chefe e amante, Katrina. Mas juro que estou fazendo o possível para não dar spoiler. Juro!)

A edição brasileira acertadamente destaca, na orelha do livro, um trecho importante para compreender o que a autora busca abordar com a obra: o “Problema Sex and the City”. Reese, uma das protagonistas da trama, cria a expressão acima por acreditar que o seriado estrelado por Sarah Jessica Parker no fim dos anos 1990 delineou as quatro principais alternativas disponíveis para as mulheres: a vida romântica (Charlotte), a carreira (Samantha), a maternidade (Miranda) ou a autoexpressão (Carrie). Se esses quatro caminhos já são limitantes para as mulheres cis, Reese argumenta, as mulheres trans ainda estão longe de sequer ter a oportunidade de serem desafiadas pelas dificuldades que eles apresentam – mas não deixam de estar no horizonte das expectativas da feminilidade.

Um dos pontos mais interessantes de Destransição, baby é fugir do lugar-comum de abordar as experiências trans pelo viés da transição em si. Narrativas sobre pessoas LGBTQIA+, convenhamos, muitas vezes se centram nos momentos “iniciais” de uma identidade não hétero: o momento em que a pessoa “se descobre”, enfrenta o mundo e resolve seguir o próprio desejo – daí, das duas uma, ou ela tem um fim trágico ou ganha algum apoio inesperado e esperamos que seja feliz para sempre, fim da história. Em vez disso, as personagens do romance de estreia de Torrey Peters enfrentam outras decisões e situações da vida adulta: términos de relacionamento, funerais, a descoberta de uma gravidez perto dos 40 e a necessidade (e a possibilidade!) de pensar que formato uma família deve ter.

(Nesse sentido, se é pra pensar em séries de TV, talvez a proximidade maior nem seja com Sex and the City, e menos ainda com Pose – e mais com Manhãs de Setembro, estrelada pela cantora Liniker. Cassandra, personagem de Liniker, é visitada por uma ex de uma década atrás e descobre ter um filho do qual nunca tivera conhecimento. Surpresa com a informação e querendo manter o controle da própria vida, Cassandra comete alguns bons vacilos – e a delicadeza do roteiro mostra que, no fim das contas, pessoas trans são pessoas e erram como todo mundo.)

Voltando: Destransição, baby não poupa ninguém e cutuca uma ferida difícil: mostrar que nem só de identificação é feita a relação entre pessoas trans (até pela dificuldade em lidar com as próprias angústias). Entre toda a acolhida e incentivo, também existem animosidade, julgamento e muito cansaço com as discussões do Twitter. Ela também mostra que transicionar (e ser mulher) não é igual para todo mundo, especialmente quando se levam em conta raça, classe e idade. E a destransição de Ames e o “Problema Sex and the City” talvez mostrem que gênero é um terreno desconfortável para todo mundo – ao menos para todo mundo que não é homem cis (embora a necessidade de autoafirmação da masculinidade cis-hétero nos leve a duvidar disso).

Destransição, privilégio branco, maternidade LGBTQIA+, desejo, fetiches, travequeiros, transfobia: temas delicados (e polêmicos) que Peters aborda com uma autoironia gostosa mas não condescendente. A tradução de Luisa Geisler consegue manter o tom provocativo, por vezes controverso, mas nunca gratuito, da prosa de Torrey Peters.

Com a publicação do romance de estreia dela, leitores e leitoras do Brasil ganham muito: primeiro, ganhamos acesso, em português, a uma narrativa ficcional longa escrita por uma autora trans, algo raro em um mercado incipiente em que a maioria dos títulos nacionais se divide entre ensaios, poesias, contos e autobiografia. Segundo, Destransição, baby prova que ler pessoas trans não é só algo importante – pela relevância do que pessoas trans têm a dizer –, mas também que ler literatura de autoria trans pode ser simplesmente ler boa literatura.

Trans ou não, mulher ou não, acho que este é o ponto deste texto aqui: ler Destransição, baby vale a pena porque o livro aborda, de maneira provocativa, temas contemporâneos relevantes, em uma narrativa bem desenvolvida através de boa prosa – é um livro gostoso de ler, ponto. Gostoso a ponto de fazer um cara que não gosta de resenhas escrever sobre um livro que nem trata de pessoas como ele. (Quando mais gente ler, daí os detalhes não vão mais ser spoiler, né? O único spoiler deste texto é o título, que espero que tenha sido vago o suficiente para não entregar nada, mas interessante o suficiente para atiçar a sua curiosidade. Por favor. Preciso de mais gente para conversar sobre este livro!)


(*) Caio C. Maia é homem trans, tradutor, antropólogo e jornalista. Faz doutorado em Antropologia no Museu Nacional/UFRJ, onde estuda discursos sobre experiências transmasculinas de transição de gênero. Como a Reese, ele tem pé atrás com discussões de Twitter – mas você pode encontrá-lo em @caio_c_maia.