O golpe de Estado na Somália em 1969

É de conhecimento geral que o século passado (XX) foi repleto de guerras, conflitos e golpes de Estado. Um deles aconteceu na Somália, em 1969. Para entender esse período é necessário voltar alguns anos.

A Somália tornou-se independente da Itália e da Inglaterra em 1960, criando a República Somali. A nova nação foi composta por dois territórios recém unificados, dividindo o país em diversos aspectos: policiamento, tributação, administração e sistemas legais. Mas essas divergencias seriam resolvidas em 1961 com um referendo onde 90% da população aprovavam a nova constituição.

No entanto, mesmo após o estabelecimento de uma democracia parlamentar, com o objetivo de criar uma identidade nacional unificada, a Somália se manteve profundamente polarizada entre políticas, clãs e linhas étnicas. Em 1964, foram realizadas as primeiras eleições legislativas e a Liga da Juventude Somali obteve 69 dos 123 assentos na Assembleia Nacional.

Em 1967, o primeiro-ministro de formação italiana e membro da Liga da Juventude Somali, Abdirashid Ali Shermarke, foi eleito presidente da Somália. Em março de 1969 novas eleições legislativas ocorreram e as tensões ficaram cada vez maiores.

A Liga da Juventude Somali obteve novamente a maioria do parlamento e as alegações de corrupção e fraude eleitoral vieram à tona. Mais de 25 pessoas morreram durante a onde de violência no período eleitoral. A percepção de que a Liga da Juventude Somali era crescente na população, o que foi agravado quando as alegações de corrupção e fraudes foram ignoradas. Estava criada as condições perfeitas para o golpe de Estado.

Nessa época, o major-geral Siad Barre emergia como o líder do Conselho Revolucionário Supremo, um grupo de militares e policiais somalis. Em 15 de outubro de 1969, o presidente Abdirashid Ali Sharmarke foi morto a tiros por seu guarda-costas que usou um rifle automático quando ele saia de um carro no norte da cidade de Las Anod.

No dia seguinte ao funeral de Sharmarke, o golpe foi iniciado. Na manhã de 21 de outubro de 1969, as tropas das Forças Armadas Nacionais da Somália apoiadas por tanques e comandadas por vários membros do Conselho Revolucionário Supremo isolaram vários locais estratégicos em Mogadíscio, incluindo o edifício do parlamento, do Ministério da Informação, a estação Radio Mogadishu, a sede da polícia e a mansão do primeiro-ministro Egal. As principais autoridades do governo foram sequestradas e presas. Vários antigos políticos somalis também foram presos durante o golpe.

Após a tomada de poder, o Conselho Revolucionário Supremo de Barre dissolveu o Parlamento e a Suprema Corte e suspendeu a constituição. Em 1970, um ano após o golpe, Siad Barre declarou que a Somália era um Estado socialista e instituiu a “Somalização” do país, um grande esquema para reduzir as lealdades aos clãs e criar um país “somali obediente”.

Durante os anos que viriam, Barre passou a ser cada vez mais autocrático. Em 1986, quando grupos dissidentes do governo começam a ser atacados, uma revolução tomou conta do país.

A obra O pomar das almas perdidas, escrita pela autora finalista do Booker Prize 2021, Nadifa Mohamed, traz o início dessa revolta civil como pano de fundo da narrativa. Além de contar a história de uma guerra que chocou o mundo, Nadifa desvenda a alma e a cultura do povo somali por meio de suas três protagonistas.