Aleluia e outras crônicas

Por Antônio Cestaro

Aleluia

O avião passava no azul do céu e soltava chumaços de papéis coloridos que se espalhavam feito mágica no vento. Eu corria com a meninada ansiosa para juntá-los e separá-los por tamanho e cor.

Com o tempo, a seriedade dos papéis ganhou força na minha vida, percebi que era propaganda política, e a chuva de papéis coloridos foi esmaecendo e aos poucos perdendo o encantamento.

O pequeno avião, o movimento das folhas em aleluia no céu e a inocência de criança foram o pacote de bondades da minha infância.


Confusão

O professor dizia que as palavras têm gosto, cheiro e sentido justo, bem definido, e explicava que manga é uma palavra amarelo-rosada irresistível e que quando a gente olha pra ela da vontade de morder, que saudade é uma palavra viajante que leva a pessoa para lugares distantes e que a palavra voar é aberta e fluida porque é uma espécie de companheira da palavra liberdade. Era divertido esse jogo de encontrar a alma das palavras porque há palavras que dão um rebuliço na cuca, ficam parecendo coisa que não são e embolam o sentido daquilo que poderiam ser para serem outra coisa, desaprumada, desengonçada, como movimento de dança de bêbado trôpego andando pelas avenidas movimentadas da cidade chuvosa numa bicicleta sem freio.

A palavra confusão é uma delas, de gente esquizofrênica que pensa que é normal e de pessoas normais que pensam que são muito loucas.


Na 23 de maio

Enquanto descia a 23 de Maio no fusca financiado que comprara quase um ano antes, a cabeça queimava em ideias, se perdia em lembranças inúteis sobre o passado difícil e recalculava, de tempo em tempo, o montante das 26 prestações que ainda havia para pagar. Na Praça da Bandeira, um cachorro de rua cruza, hesitante, à frente do carro e empaca no meio do caminho, encarando o para-choque de frente, olhos resignados de quem se acostumou com a fisionomia da morte. Piso no freio precário e rodopio na avenida, coração saltando pela boca ressecada de tensão. O trânsito faz movimento de cobra, um taxi desvia pela direita, passageiro praguejando pela cabeçada na coluna da porta e da calçada um xingamento gratuito, de quem não correu nenhum risco mas tem espírito participativo.

Passado o susto, as pernas ainda tremem quando acelero à frente, acertando o compasso da respiração. No retrovisor, o cachorro magrelo embaixo do mastro da bandeira do Brasil, as lembranças das dificuldades da vida e das 26 prestações pendentes formam uma imagem desoladora. Uma brisa de alívio entra pela janela do carro e um ânimo novo brota pelo desastre evitado. Chego a elaborar que todo o meu problema existencial está no carro e concluo que está mesmo, afinal não sou eu a ocupar o Fusca, assim como minha alma ocupa o meu corpo?


Sorriso

Sempre que olhava no espelho ficava incomodada com o traço convexo da boca que lhe dava um ar de tristeza, melancolia.

Havia entrado há tempo num esquema para elevar a autoestima, sentir-se valorizada e mostrar-se feliz para o mundo.

Cabelo bem-cuidado, roupas escolhidas com esmero e malhação na academia pelo menos duas vezes por semana já haviam se tornado um hábito.

Pouco mais de dois anos de psicanálise também haviam mudado sua percepção e interação com o mundo. Sentia-se, afinal, incluída, uma sensação que não tinha antes de decidir que podia ser feliz.

As coisas só se complicavam quando tinha que encarar o espelho, e do espelho não podia abrir mão para manter a parte física do seu plano de ser feliz.

O tempo passava e o traço da boca não respondia.

Começou a forçar sorrisos para o espelho. No momento que sorria a coisa melhorava, mas azedava de novo no finalzinho do sorriso. Uma coisa irritante!

A felicidade realmente não podia ser completa daquela maneira.

Marcou uma consulta com o cirurgião plástico. Estava decidida. Não podia deixar que uma herança genética física fosse um obstáculo à plenitude da sua felicidade.


Os textos que compõem o livro “Uma porta para um quarto escuro“. Em uma mistura entre persona literária e a figura do escritor, o fazer artístico é colocado em pauta e o leitor é levado a fim de entender a tradição literária como uma chave para quarto escuro da alma.