O homem ideal

Por Marcelo Rubens Paiva

A respiração dela se descontrolava quando ele comandava as reuniões semanais. As mãos tremiam quando ele aparecia de repente ao seu lado na máquina de café e nunca tinha trocado. Ela prontamente emprestava as moedas. Depois voltava para a sua baia e se perguntava se não teria sido demasiadamente solícita.

Às vezes, quando, coincidentemente, subiam no mesmo elevador para o escritório, o mundo parava. Era a viagem mais longa em um prédio de dez andares.

No andar da firma, cada um para o seu lado, e ela lamentava não trabalharem perto do céu, para a viagem do elevador durar a eternidade.

Ouvia dizer no happy hour que ele era um galinha e catou algumas estagiárias, secretárias e duas advogadas.

No analista, perguntou se aquela paixão que nascia pelo chefe não era uma óbvia transferência edipiana.

Tudo nele era perfeito.

Atencioso e solteiro!

A gravata que combinava, o sapato sempre engraxado, a caneta Montblanc reluzente, o Rolex no pulso, como um executivo, para seus padrões, de bom gosto. Quase ridículo.

Inteligente, rápido, poliglota, sabia usar o pretérito mais-que-perfeito com precisão. Costumava passar os fins de semana fazendo o quê?

Velejando, claro.

A paixão aumentava, sufocava: insônias. Análises minuciosas de cada e-mail trocado profissionalmente, de cada comentário solto em reuniões, para desvendar se ele também sentia algo por ela.

Até que decidiu procurar um milagreiro que anunciava em folhas coladas nos postes de luz da Marginal, garantindo que, por um preço baixo, conseguia enlaçar qualquer paixão não correspondida.

Ela confessou todo o seu desespero apaixonado para o mago de moletom e camisa do Corinthians, que atendia numa portinhola de uma galeria do Centro. Nada a perder.

A consulta durou quinze minutos.

Ele lhe deu apenas uma poção em gotas, num invólucro sem nada escrito e sem data de validade, e disse: “Coloque dez gotas no café dele e terá o seu homem garantido até o fim dos dias.”

Charlatão?

Toda pinta.

Mas cobrou apenas 10 reais pela consulta. O “veneno” incluído. Exigiu que retornasse em dois meses.

O plano foi traçado. Ela sabia do horário em que o metódico chefe passeava pelas baias, e como era o seu café. Postou-se ao lado da máquina com as moedas na mão.

Quando ele se aproximou, ela enfiou as moedas, colocou não dez, mas vinte gotas no copo que a máquina despejou. O chefe então a cumprimentou, descobriu-se sem troco, e ela ofereceu o seu café recém-expelido.

Ele recusou.

Ela insistiu.

Ele tomou, não sentiu nada e partiu para a sua ronda.

No dia seguinte, ela recebeu e-mails confusos dele, como de um bêbado em transe. Não respondeu.

Então, ele apareceu na sua baia com um bombom, ficou ao seu lado e se esqueceu do que ia perguntar e de dar o bombom.

No dia seguinte, a convidou para um almoço. Num hotel. Com vista para a cidade. Enquanto subiam para o restaurante, ele apertou outro andar. Segurou na sua mão. Desceram antes num corredor cheio de portas e quartos. Tudo calculado. Reserva já feita. Chave no bolso. Abriu a porta, entraram.

Foi o melhor sexo de suas vidas, confessaram.

Os encontros se tornaram diários. Jantares entraram para a agenda. Almoçavam, jantavam, transavam. Surgiram as caronas. Ele a pegava de manhã. E a levava à noite.

Primeiro foram flores. Vieram perfumes franceses, anéis, colares, relógios.

O chefe mudou a mesa dela para a sua sala. Dizia que não conseguia ficar mais de um minuto sem ela por perto. Beijaram-se em todos os cantos. Ligava de madrugada, só para ouvir a sua voz.

E, nos fins de semana, lá ia ela velejar e vomitar com o balanço do mar.

Grudados, não havia mais folga.

Ele se mudou para a casa dela.

Tomavam banhos juntos.

Liam os mesmos livros, jornais, revistas, ouviam as mesmas músicas.

Não cabiam mais flores no apartamento, joias nas gavetas, relógios no pulso. Até no cabeleireiro ele ia e esperava, lendo revistas femininas antigas.

Se saía com as amigas, ele ia junto.

Se visitava a família, lá estava ele, de mãos dadas, colado.

Dois meses se passaram. O retorno da visita ao milagreiro.

Ela apareceu na hora marcada, aflita, estressada. O novo namorado e ainda chefe a esperou na porta. Quando o mago a viu, disse o que ela queria ouvir: “Então, veio buscar o antídoto? Não aguenta mais, né?”

Ela teve vergonha de exprimir seu enjoo e arrependimento. O curandeiro lhe deu outra poção. Num vidrinho de gotas. E disse: “Pois agora, são outras dez gotas. Mas, desta vez, custará 200 mil.”


O texto faz parte da obra “O homem ridículo“, na qual Marcelo descreve as nuances do universo feminino e admite que os marmanjos andam perdendo território para a esperteza das meninas.