Os bastidores da capa de “O grande Gatsby”

por Amanda Cestaro (*) e Luiza Lewkowicz (**)

– Estou pensando em esvaziar a piscina hoje, senhor Gatsby. Logo as folhas vão começar a cair, e vai haver problema nos canos.

– Não faça isso hoje – respondeu Gatsby. Ele se voltou para mim, como se estivesse se desculpando. – Sabe, meu velho, que eu não cheguei a usar a piscina neste verão?

Símbolo fundamental de status e sucesso, a piscina de mármore de Jay Gatsby é um dos elementos mais icônicos da mansão da fictícia West Egg. Ao longo de O grande Gatsby, a piscina – pouco usual em casas norte-americanas na década de 1920 – é usada exclusivamente pelos convidados das centenas de festas desse nosso excêntrico protagonista. Não esvaziar a piscina ao fim do verão é a forma de Gatsby de não aceitar o fim de seus sonhos – especialmente depois de se ver tão perto de reconquistar seu amor de juventude. Ironicamente, seu primeiro mergulho é também o último. Uma espécie de mergulho de batismo e purificação depois de uma vida dedicada ao reencontro com a amada.

Publicado originalmente em 1925, O grande Gatsby, clássico de F. Scott Fitzgerald, relata, a partir dos olhos do narrador Nick Carraway, a busca desesperada do milionário Jay Gatsby pela atenção de um antigo amor, Daisy Buchanan, de quem se separou na Primeira Guerra Mundial. A obra ganhou dezenas de edições ao redor do mundo, mas poucas se utilizaram da piscina como elemento para a capa. Nesta nova edição da Tordesilhas, resgatamos essa imagem como inspiração.

A ideia de usar o fundo piscina como elemento principal para capa e o simbolismo por trás da história dos mosaicos se uniram para criar a composição tipográfica em um processo digital atualmente conhecido como Fauxaics, no qual se desenha o mosaico e com o uso de texturas e diferentes tons da mesma cor é possível simular o efeito real com o uso de softwares como o Adobe Photoshop e o Procreate. Parte do processo pode ser conferido no time lapse abaixo.

A técnica do mosaico é tradicionalmente presente nas artes decorativas. Na antiguidade, eram utilizados como símbolos de riqueza e poder, enchendo de cores e detalhes muros, pisos e tetos de locais imponentes. São resgatados no período bizantino e depois no Iluminismo, tendo sido muito usados nas artes sacras, decorando igrejas e catedrais, dessa vez com alta presença de folhas de ouros para enriquecer as composições criadas. Faz seu retorno mais uma vez nos séculos XIX e XX com o Modernismo, sendo assim incorporado aos poucos não só na arte contemporânea como também na arquitetura, aparecendo frequentemente em espaços públicos. Um exemplo são os mosaicos do elevador e do exterior do edifício Chrysler em Nova Iorque, um dos maiores símbolos do Art Déco:

Fonte: Rev Stan (Wikimedia Commons)
Fonte: Elise.rolle (Wikimedia Commons)

Além dos mosaicos, outros detalhes foram importantes no processo criativo. As cores, por exemplo, não só ajudam a associar ao azul do fundo da piscina, como também o seu tom mais esverdeado faz referência ao farol verde na outra extremidade da baía, localização da casa de Daisy e Tom Buchanam que Gatsby observa ao longe. O dourado em acabamento hot stamping (impressão metalizada) e as molduras fazem referência ao Art Déco e aos cenários de luxo descritos no livro. Outras ideias foram apresentadas: duas delas seguiam com a ideia do mosaico e a terceira foi pensada como o reflexo da água da piscina. Você pode conferi-las abaixo, junto ao resultado.

CAPA FINAL

O grande Gatsby é, nas palavras de Isa Sinay, doutora em literatura pela USP, uma homenagem de F. Scott Fitzgerald a uma época dourada e, também, um relato de fim de mundo. Foi o que buscamos trazer nessa capa: a ostentação, o fim do mundo e o fim de Jay Gatsby.


(*) Amanda Cestaro é designer da Tordesilhas Livros e artista da capa de O grande Gatsby.
(**) Luiza Lewkowicz é editora da Tordesilhas Livros.