Idade de ouro

No dia 1º de agosto, Ney de Souza Pereira, o cantor Ney Matogrosso, completa 80 anos de Terra. Nascido na cidade de Bela Vista, no Mato Grosso do Sul, fronteira com o Paraguai, Ney resgatou o sobrenome artístico do pai e desde cedo mostrou vocação para as artes. No início dos anos 1970, foi vocalista do grupo Secos & Molhados, um dos grupos definidores da Música Popular Brasileira, e, em carreira solo, consolidou sua trajetória como um dos artistas mais importantes do país, estreando com o disco Água do Céu – Pássaro, em 1975.

“O silêncio alimenta minha criatividade, com ele fico aberto para que as ideias possam chegar com tranquilidade, de repente. Em meio a esse mundo maluco, necessito do silêncio para criar e ficar em paz. Só não enlouqueci com a violência que carregava dentro de mim porque a arte me resgatou e me trouxe vida e dignidade. O meu fantasma era a loucura, tinha medo de ficar louco de verdade. Quando me tornei um artista, peguei aquela violência estranha que eu carregava e coloquei toda na minha arte. Não à toa, nos meus primeiros shows exercitava o confronto: um homem nu, de voz aguda, requebrando no palco, num país em plena ditadura militar.” (p.95)

Com mais de quatro décadas de carreira, ele é cantor, compositor, dançarino, coreógrafo, ator e diretor. Também já assinou a iluminação de vários espetáculos, com destaque para o show “Paratodos”, de Chico Buarque. Em 1983, tendo completado dez anos no meio artístico, fez sua primeira turnê na Europa, com destaque para sua apresentação – ao lado de Alceu Valença, Milton Nascimento e Wagner Tiso – na Noite Brasileira do Festival de Montreux (Suíça), registrada em disco. Em 2000, lançou o disco Vivo, em comemoração aos 25 anos de carreira solo.

Em 2018, a Editora Tordesilhas publicou Vira-lata de raça, escrito pelo artista junto ao poeta Ramon Nunes Mello, em que Ney relembra momentos marcantes de sua trajetória pessoal e profissional – dos anos 1970 até o momento presente. Ao longo do livro, ele ressalta a importância de sua formação familiar – principalmente a relação conturbada com a autoridade do seu pai; os lugares onde viveu pelo país; a forte conexão espiritual com a natureza; a experiência com as drogas; a certeza e o desejo de ser um artista realizado; o combate à censura e sua transgressão estética; a liberdade para lidar com sua sexualidade, suas paixões e amores; a firmeza para lidar com as perdas da vida; e a leveza para lidar com o passar do tempo e se reinventar. Com cerca de 70 fotografias P&B e dois cadernos de fotos coloridos, o livro contém ainda um anexo com toda a discografia do cantor.

“Sempre reagi ao autoritarismo, dentro e fora do círculo familiar. Eu não tinha a inocência das crianças e entendia tudo do mundo adulto, as conversas debaixo dos panos. Não me esqueço da surra que tomei do meu pai, quando ele simplesmente se irritou e resolveu me bater com a intenção de que eu chorasse. Outra vez, sem nenhum motivo, ele me deixou de castigo, completamente nu, no meio do jardim de casa. Envergonhado, eu cobria minha nudez com a areia. Eu era uma criança indefesa, mas fui criando uma força interna e repetindo a mim que não deveria chorar. Não chorava, só de raiva, para contrariar a autoridade dele. Desafiava o meu pai de todas as formas possíveis. A maior autoridade que enfrentei na minha vida foi Antonio Matogrosso Pereira.” (p. 19)

O texto se divide em nove capítulos, intitulados com nomes de músicas que atravessaram a carreira de Ney – “Sangue latino”, “Vereda tropical”, “Delírio”, “Inclassificáveis”, “Pro dia nascer feliz”, “Balada do louco”, “Astronauta lírico”, “Tupi fusão” e “Até o fim” –, além da introdução.

Ramon Nunes Mello diz que o livro é uma tentativa de captar um pouco da múltipla personalidade artística, com desdobramentos infinitos, de Ney Matogrosso. Nós, da Editora Tordesilhas, desejamos ao fauno cantante muitos anos de vida caleidoscópica!