Entrevista com a autora de “Frida Kahlo e as cores da vida”

Recriar a história de uma grande personalidade pode ser um desafio. Ainda mais se essa personalidade for Frida Kahlo, uma das maiores artistas do mundo e ícone do movimento feminista. Frida teve a vida marcada por grandes tragédias, desde seu diagnóstico de poliomielite até o acidente que a impossibilitou de sair da cama por longos meses. Apesar disso, conseguiu produzir uma obra revolucionária, sempre se mantendo fiel a seus ideais.

Conversamos com Caroline Bernard, autora de Frida Kahlo e as cores da vida, sobre seu processo de escrita e as maiores dificuldades em dar voz a personagens tão emblemáticos da cena artística do século XX.

Tordesilhas: O que fez você escolher Frida Kahlo como personagem?

Caroline Bernard: Frida Kahlo faz parte da minha vida desde os meus vinte anos. Em 1988, aos 27 anos, ganhei de presente de aniversário a biografia de Hayden Herrera sobre Frida. Desde então, sou fascinada pela vida da artista. Em 1992, viajei para o México e visitei a Casa Azul, a casa em que viveu. Nos anos seguintes, fiquei ainda mais conectada a Frida por meio de várias exposições e livros que finalmente me levaram à ideia de escrever meu próprio livro sobre ela. Foi um grande prazer aprender mais sobre Frida Kahlo, incluindo sua vida profissional e romântica! Um tempo depois, fiz uma segunda viagem ao México para visitar os lugares onde ela morava e quanto mais eu aprendia sobre ela, mais me fascinava.

Frida Kahlo's Garden at Powell Gardens
Casa Azul

Tordesilhas: Como foi o processo de pesquisa para este livro?

CB: Quando surgiu a ideia de escrever um livro sobre Frida, fui inspirada pela biografia de Hayden Herrera que está na minha estante até hoje. Estava cheio de notas e comentários que levavam a mais perguntas. Fiquei tão envolvida que queria ler todos os livros sobre a artista. Meu objetivo era entender sua vida, seu trabalho, suas opiniões políticas − basicamente tudo sobre ela. Durante esse período, eu estava tão perto de Frida que começou a parecer que eu estava morando ao lado dela. Graças a uma feliz coincidência, houve uma exposição em Londres, quando eu estava mergulhada em minhas pesquisas. Pude ver todos os pertences pessoais encontrados cinquenta anos após sua morte em sua casa na Cidade do México. Seus vestidos, batons, espartilhos e membros artificiais… Isso me deu uma visão mais íntima de sua vida pessoal.

Tordesilhas: Quais foram as maiores dificuldades para retratar essa personagem tão emblemática?

CB: Esta é uma pergunta difícil. Mas acho que a coisa mais desafiadora foi entender o impacto de sua “mexicanidad”, o fato de Frida Kahlo ter uma conexão tão profunda com a cultura mexicana, as artes e o modo de vida mexicano em geral. Para mim, como alemã, não foi fácil! Felizmente, eu sei espanhol, então isso foi muito útil. E tentei ter uma ideia dos sentimentos dela por sua herança mexicana durante minhas viagens ao México.

Tordesilhas: Por que usar a ficção para contar essa história?

CB: Existem tantas biografias e livros acadêmicos sobre Frida. Eu queria contar outra história. Decidi escrever um livro que não fosse apenas mais uma biografia, mas um livro que fizesse o leitor se familiarizar com Frida Kahlo por meio de uma abordagem mais narrativa. E acho que isso acabou sendo bem-sucedido. Desde que foi publicado, recebi muitas cartas de pessoas que me disseram que, depois de lerem o livro, entenderam melhor as pinturas de Frida.

Tordesilhas: A relação entre Diego e Frida é complexa e às vezes explosiva. O que você acha que seria diferente entre eles se fossem um casal dos tempos atuais?

CB: Para mim, esse é um dos pontos mais fascinantes de Frida: ela era uma mulher tão moderna que se comportou como se o machismo mexicano e a crença católica de sua mãe nem sequer existissem. Frida foi muito corajosa, ela não cedeu. Ela era sexualmente livre, pediu o divórcio e, para ela, era inimaginável assumir o papel de dona de casa e obedecer ao marido. Realmente não vejo como as mulheres modernas de nossos tempos poderiam se sair melhor.

Tordesilhas: Na sua opinião, além da Revolução Mexicana, que outras formas de revolução o trabalho de Frida simboliza?

CB: A revolução sexual, a libertação das mulheres. Para perceber isso, basta dar uma olhada em suas pinturas ou em alguns títulos como As duas Fridas; Autorretrato com colar de espinhos e beija-flor; A coluna partida; Autorretrato na fronteira entre o México e os Estados Unidos. O trabalho de Frida é extremamente rico em mostrar a vida das mulheres.


Saiba mais sobre o livro aqui.