Uma carta na prisão e com arte

por Daniel Falkemback (*)

De artista famoso a prisioneiro: esse é o caminho que o escritor irlandês Oscar Wilde traça em De profundis, título pelo qual foi publicada, após sua morte, a carta que nunca enviou à sua paixão, o Lord Alfred Douglas, por ele chamado de Bosie. Não faltam especulações acerca da vida pessoal do autor, que incluem as relações muito próximas que desenvolveu com o jovem dândi inglês de família rica. O próprio Wilde era também de origem abastada, da elite dublinense, ainda que em decadência econômica. Ele nasceu em 1854 e cresceu na capital irlandesa, então sob domínio britânico, até se mudar para a Inglaterra em 1874, para estudar na Universidade de Oxford. Antes mesmo disso, já tinha muito interesse pela literatura e pela estética, que marcaram o resto de sua vida. Da formatura em Oxford em diante, tornou-se o escritor e – como, talvez, ele se definiria – o artista que conhecemos até hoje, seguindo em ascensão até, pelo menos, a sua derrocada: a condenação à prisão por atos imorais de caráter homossexual, um crime na Inglaterra vitoriana.

Esse é o pano de fundo de De profundis, que, à princípio, tinha outro título latino: Epistola: in carcere et in uinculis (“Carta: na prisão e com grilhões”). A motivação de Wilde para escrever essa carta não era dar uma resposta a Bosie após uma missiva anterior, e sim manifestar-se após dois anos de encarceramento, após dois anos sem qualquer notícia enviada pelo seu ex-amante. O que permeia quase todo o texto é o tom de desabafo, como se o autor estivesse há anos guardando para si uma série de problemas que via no outro. Na tradução de Cássio de Arantes Leite, a relação entre ambos é logo qualificada como uma “desgraçada e assaz lamentável amizade que terminou em ruína e infâmia pública” para Wilde, mas que, ao mesmo tempo, não deixa de lhe ser “a memória de nossa antiga afeição” que o “acompanha quase sempre”. O texto oscila entre essas emoções opostas, uma polaridade já presente em seu segundo parágrafo, de modo que o escritor vai da culpa ao perdão todo o tempo.

Os termos cristãos não vêm à toa: a religião é forte na argumentação do escritor, a mesma religião que, de certa forma, embasa a moral das leis que o forçaram a ficar no cárcere e rejeita um amor como o seu pelo jovem lorde. Essa contradição se torna mais complexa se for associada à visão da Antiguidade greco-romana cultivada por parte do século XIX britânico, presente ao longo do texto. Por exemplo, desde o início, o autor chama seu relacionamento de uma “amizade”, não por uma negação de seu caráter amoroso e sexual, mas para ligá-la a uma noção de amizade própria dos gregos, um afeto mais próximo do amor, como nos diálogos Fedro e O banquete de Platão. Esse paralelo com o pensamento platônico pode ser feito não apenas nessa parte da obra de Wilde, mas também em outros momentos, como em O retrato de Dorian Gray. Por esse espaço entre cristianismo e paganismo, desenvolvem-se as relações em De profundis.

Por se dirigir a seu ex-amante em parte responsável por sua prisão, Wilde dedica uma primeira parte de De profundis a explorar por que essa amizade, idealizada a partir do modelo ateniense, deu tão errado. A culpa é atribuída a Bosie por seu egoísmo, sua falta de consideração com todos que o amam e sua visão superficial do mundo, mas o próprio autor da carta também se incute parte da culpa, por tê-lo estimulado, de certa maneira, a explorar esses impulsos. Desde o começo do texto, Wilde está disposto a perdoar seu amor, porém parece ainda mais determinado a mostrar como o lorde foi o responsável por seu encarceramento e por suas dívidas. A ruína de sua arte, outro tópico muito forte na carta, também é em parte atribuída à relação destrutiva dos dois homens. O escritor irlandês parece se afastar do ideal platônico, pois ele, em parte em contradição com o Fedro, vê sua paixão “grosseira e incompleta” como a razão para ter deixado de ser “rei” na “Arte”, sempre em maiúscula em seu texto. Segundo ele, a beleza na arte pode estar atrelada ao amor, pois “o que é belo, e belamente concebido, pode alimentar o Amor”, também em maiúscula. Por Bosie sentir na verdade uma paixão motivada pelo ódio, apenas houve ruína.

Ainda sobre a arte, é interessante ver como Wilde, além de lastimar a derrocada de sua própria criação, atesta que Bosie também não consegue se firmar como um artista devido à sua superficialidade e ao seu ódio. Sua visão da poesia de Lord Alfred Douglas parece ser corroborada pela maioria da crítica. Até mesmo o próprio lorde o reconhece quando estava mais velho, ao advertir o leitor, em seus Collected Poems, de 1915, que “os melhores poemas não podem, em geral, ser encontrados no início do volume”, onde estavam as composições da juventude. Se nos atentarmos bem, veremos que Bosie foi realmente rodeado de pessoas mais habilidosas que ele, como a poeta Olive Custance, sua companheira de fim de vida, e a artista Romaine Brooks, sua amante, além do próprio Wilde. Em De profundis, fica claro que o poeta encarcerado percebia que o homem pelo qual era apaixonado, na verdade, parecia estabelecer relações abusivas com todos, apropriando-se de todas as vantagens que o talento e o afeto alheios poderiam lhe dar. No entanto, é claro que essa é a visão do escritor, mas não deixa de ser uma imagem muito convincente.

Em seu posfácio para a edição da Tordesilhas, Munira H. Mutran nos lembra de como uma carta como De profundis pode ser uma revelação de intimidades, de aspectos da personalidade do seu escritor. A pesquisadora também destaca que o tom de Wilde ao longo do texto muda, sendo agressivo e sarcástico ou comovente e apaixonado, como se estivesse num dilema sentimental. Apesar de dar detalhes ao máximo de como Bosie foi horrível, o autor não deixa de ressaltar como o amor ainda parece insistir. “Onde há Sofrimento há um solo sagrado”, declara Wilde, e certamente esse páthos é baseado no sacro, na virtude, o que pode surpreender o leitor de suas obras ficcionais. Ao fim, De profundis parece ser esse encontro das dores pessoais com a persona do autor, um conflito em que a beleza e a vida se confundem e tornam uma simples carta um testemunho artístico.


(*) Daniel Falkemback é doutorando em Letras na Universidade Federal do Paraná. Também é tradutor, crítico literário e professor.