Lavar roupa todo dia

por Toninho Vaz (*)

A biografia de Luiz Melodia, Meu nome é ébano, nasceu de minha amizade com o músico Renato Piau, piauiense, guitarrista e violonista, que durante décadas trabalhou com o poeta do morro de São Carlos. Renato frequentava minha casa em Santa Teresa, em reuniões entre amigos, sempre empunhando o seu magnífico violão. Foi ele quem me apresentou ao Luiz em 2003, no palco do Canecão. Eu havia solicitado um depoimento sobre Torquato Neto, para a biografia que estava escrevendo do poeta. Foi um encontro rápido, durante a passagem de som do show que eles apresentariam com a banda duas horas depois. Melodia foi muito solícito e contou o que lembrava da amizade com Torquato, que considerava, ao lado de Waly Salomão, como o seu legítimo descobridor. Foi Torquato quem deu o apelido a Piau.

Na casa de Renato Piau com o cartaz de Melodia

O tempo passou e, depois da sua pranteada morte em 2017, Renato teve a ideia de me apresentar à Jane Reis, viúva e mãe de Mahal, filho único do casal. A baiana Jane passou a ser tudo na vida de Luiz Melodia desde 1977, quando protagonizaram um tórrido romance em Salvador. Luiz estava na cidade para uma temporada curta, de uma semana, mas ficou seis meses. Com o casamento consolidado, e com base no Rio de Janeiro, Jane chegou para conferir alguma organização ao caos que era a vida, digamos, administrativa, de Luiz Melodia. A partir de certo momento, ela passou a ser também a sua empresária em projetos vários, discutindo e assinando os contratos. Em junho de 2018, no dia da missa de um ano de falecimento do Melodia, Renato Piau me levou à casa dela, em São Conrado, dizendo: “Comadre, este é o cara que deve escrever a biografia do Luiz”. Ela aceitou de imediato e nunca me apresentou grandes exigências, apenas recomendou equilíbrio.

Na sala de Alceu Valença, no Leblon, antes da quarentena

Estava sendo gestada a minha oitava biografia, em uma carreira que começou em 2001 com Paulo Leminski, o bandido que sabia latim. Agora eu estava diante de um personagem avaliado por mim como empolgante e misterioso. Luiz era arredio às entrevistas e às badalações inerentes ao cargo que ocupava como ídolo da MPB. Isso alimentava o seu lado misterioso ou, como dizem os letrados, seu estilo low profile. Era um frequentador assíduo do Baixo Leblon, na fase áurea, sempre cercado por músicos e gente enturmada, de um modo geral.

Projeto concebido, a primeira tarefa seria conhecer o berço de Luiz Melodia e do próprio samba carioca, ou seja, o morro de São Carlos, no Estácio. Um dos bairros mais antigos do Rio, onde surgiu a primeira escola de samba da cidade. As entrevistas com amigos de infância foram agendadas para o boteco da Loura, na parte média do morro, de onde ficava fácil entender a disposição dos eventos. Foi ali que tudo começou. Os mais velhos entre os amigos de Luiz, quase todos nascidos na década de 1960, ainda lembram quando o morro começou a virar favela, com todos os espaços ocupados, representando o fim de quintais e jardins. Depois vieram os puxadinhos na vertical. Na primeira fase de pesquisas sobre a infância, aconteceram as entrevistas com as irmãs Raquel e Vânia, ambas solícitas e pacientes com as minhas seguidas ligações.

Quando a editora Tordesilhas entrou para o projeto, o fez por reconhecer o seu valor cultural e comercial, tornando-se parceira de primeira hora. Assim, logo foi possível contratar uma assistente para começar os trabalhos, alguém experiente na área cultural, a jornalista Bia Falbo, ex-TV Globo. Ela ligava, pedia entrevista, agendava dia e hora e lá ia eu com o gravadorzinho em punho. Foram 64 entrevistas realizadas com a intenção de formar um mosaico sobre a vida e a obra de Luiz Melodia. Trabalho executado de junho de 2018 a junho de 2019.

Entrevistando Mart’nália

No prefácio do livro, que chamei de “Estácio, eu e você”, fiz algumas considerações sobre a riqueza cultural envolvida na obra de Luiz Melodia. Uma delas:

“Merece destaque nesta biografia o encontro de Melodia com o poeta Manoel de Barros, cuja obra Millôr Fernandes definiu como ‘rica e inaugural, o apogeu do chão’. Melodia também fazia versos simples na construção, vasculhando o chão. Ambos tinham dicção poética semelhantes, com temáticas ingênuas e desconcertantes pela simplicidade. O encontro deles teve como moldura o casamento de Renato Piau com Martha de Barros, filha do poeta mato-grossense, e renderia um disco importante na carreira de Melodia, batizado a partir de um poema de Manoel no qual ele colocou melodia: Retrato do artista quando coisa.”


(*) Toninho Vaz é jornalista, roteirista, escritor e biógrafo. Curitibano, mudou-se para o Rio de Janeiro na década de 1970, onde foi repórter da revista IstoÉ e do Jornal do Brasil, entre outros órgãos da imprensa escrita. Foi editor de texto do Jornal Nacional, do Fantástico e do Globo Esporte, além de trabalhar para a rede americana CNN. É autor de biografias de Torquato Neto, Paulo Leminski, Zé Rodrix e, mais recentemente, Luiz Melodia.