Um romance de fim de mundo

por Isadora Sinay (*)

Dentro da história da literatura, alguns livros assumiram uma trajetória que lhes rendeu uma fama maior do que eles mesmos. Seus significados, metáforas, mensagens tornam-se tão comentados que a narrativa em si desaparece pelas frestas e as histórias sobre o livro se sobrepõem à história contada no livro. O grande Gatsby é um desses casos, talvez o maior deles.

Muito já foi dito sobre o romance, interpretado tanto como uma metáfora do sonho americano quanto como uma crítica ao materialismo do país – como, também, um livro profundamente dos anos 1920 e uma história atemporal. “Festas Gatsby” são dadas e o protagonista se tornou sinônimo do homem que faz a si mesmo, embora o livro pareça falar exatamente da impossibilidade desse fazer-se e questionar o quanto é possível escapar do passado.

O aspecto mais pessimista e sombrio do romance muitas vezes passa desapercebido, o que é um testemunho da força desse personagem: nas páginas, Gatsby é uma figura sedutora, atraente, capaz de conjurar mágica em seu quintal e ao mesmo tempo despertar os rumores mais absurdos, fazendo com que todos se esqueçam que ele é, afinal, só um homem de carne e osso. Que seu fim trágico faça menos parte da conversa que suas festas, talvez seja prova de que Gatsby é uma figura tão irresistível que seduz até mesmo seus leitores.

Mas nessa sedução mora também um paradoxo: vindo do nada, Gatsby persegue o sucesso financeiro para poder finalmente ter acesso a Daisy Buchanan, moça rica que amou anos atrás. Gatsby tem consciência de que o poder de Daisy e seu status social não são coisas separadas, seu atributo mais sensual é (segundo Gatsby, nosso narrador Nick Carraway e uma corrente de fofocas) a voz que o protagonista define como “cheia de dinheiro”. Um dinheiro eterno, herdado, o dinheiro dos que não precisam pensar em dinheiro. Sendo tão segura em sua abundância material, Daisy não precisa pensar em dinheiro e é imune à riqueza que Gatsby acumulou especialmente para conquistá-la.

Tudo isso aponta para uma análise, por parte do autor, da diferença entre o dinheiro do qual se tem consciência e o dinheiro que não – o dinheiro que deriva de uma ação (ainda que duvidável) e aquele que existe no éter. Essa separação assume um ar um tanto macabro quando lembramos que, publicado em 1925, O grande Gatsby foi escrito apenas alguns anos antes do crash da bolsa e da Grande Depressão, momento em que o dinheiro aéreo da especulação levou consigo todo mundo.

A narrativa de reinvenção e ascensão social, seguida por decepção e queda, é sem dúvida atemporal, tanto que foi contada muitas outras vezes, em muitos outros livros, mas há em O grande Gatsby algo muito particular à sua época, uma década espremida entre o alívio supremo que foi o final da Primeira Guerra e o desespero da maior crise econômica da história até então. Fitzgerald não sabia – não poderia saber – da miséria que viria, do fascismo, dos campos de concentração, da bomba atômica que ele não viveria para ver. Mas ele sabia da urgência daquele hedonismo, do quão fugidias eram as boas décadas.   

Nascido em 1896, Fitzgerald vem ao mundo na exata metade da Belle Époque, que nos Estados Unidos seria chamada de “A Era Dourada”. O fim do século XIX foi uma época de crescimento econômico inédito, de tecnologias e progresso; e também de “pânicos” da bolsa, de uma desigualdade crescente e um conflito tão profundo entre o antigo mundo imperial e o novo mundo da indústria que acabaria explodindo na Grande Guerra, aquela que acabou rendendo à geração de Fitzgerald o apelido de “perdida”.

É o conhecimento de um mundo dourado colapsando em caos e dos jovens brilhantes destruídos pelo trauma da guerra que norteia O grande Gatsby, e o ritmo do romance se parece com as tardes de verão que ele retrata: luminoso, modorrento, cada vez mais abafado até que tudo desaba em uma tempestade. Nas festas dadas por Gatsby, a multidão é ao mesmo tempo maravilhosa e desesperada, sorvendo uma abundância infinita como se ela fosse ser roubada a qualquer momento.

Em determinada passagem, Tom Buchanan, marido de Daisy, toma Nick e o leva à Nova York para conhecer sua amante. Em um pequeno apartamento, eles começam a receber pessoas, numa festa estranha, espontânea e tensa desde o início. Essa festa encapsula, em sua estranheza e rapidez com que sai do controle e escala para a violência física, muito do espírito do romance.

Nick Carraway e os Buchanan vêm todos de um mundo mais refinado que o de Gatsby. Ao longo de todo o livro, é marcado como o personagem adquire os meios materiais da elite, mas não seus códigos ou gostos. Suas festas são tidas como vulgares, suas roupas extravagantes demais. A mensagem do sonho americano que Gatsby persegue é que, em um mundo capitalista livre das velhas estruturas – aquelas supostamente enterradas com a Primeira Guerra –, o dinheiro é tudo que se coloca entre um homem e aquilo que ele quer ser. E dinheiro pode ser acumulado por qualquer um, diferente de linhagem, família e laços de sangue. Contudo, Gatsby nunca chega verdadeiramente lá. Todo o seu dinheiro ainda não o torna aceitável para Daisy, e sua enorme mansão, instalada no “lado errado” da baía, possui uma piscina que ele nunca usou.

A piscina nunca usada é onde Gatsby encontrará seu fim e também o símbolo de como ele veste seu dinheiro como uma armadura e um dever. Nas festas alucinadas, Gatsby não bebe, não se diverte, ele apenas caminha por entre as pessoas, um observador distante em busca de sua recompensa. Em oposição, Daisy e Tom são criaturas do prazer, hedonistas que nunca precisaram parar para pensar em como seu mundo se fez, em como seus desejos são atendidos. “Eles são descuidados”, diagnostica Nick após o egoísmo deles ter causado um desastre. Uma afirmação quase profética quatro anos antes de 1929.

O grande Gatsby é um livro com a estrutura de um verão ou de uma festa. Começa leve, promissor, brilhante, mas conforme o calor agradável se torna infernal e o formigamento de uma embriaguez divertida sai do controle, é possível notar que tudo sempre esteve ali. Nenhum dos personagens pode pensar muito em sua situação, sob o risco de quebrar um mundo que não se apoia em nada.

O auge de algo é, por definição, o início de seu declínio. E se a história é cíclica, os excessos e hedonismos da década do jazz sempre trouxeram em si os anos tenebrosos que os seguiriam. Fitzgerald sabia disso e sua homenagem a uma época dourada é, também, um relato do fim do mundo.


(*) Isadora Sinay é doutoranda em literatura pela Universidade de São Paulo, trabalha como tradutora e professora.