O que aprendi no mar

por Barbara Veiga (*)

O primeiro contato que tive com o mar foi quando bem jovem. Esse elemento fazia parte da minha vida cotidiana nos copiosos finais de semana cheirando à maresia, além de ser o cartão postal da cidade onde nasci e cresci, Rio de Janeiro.

Moby Dick, obra clássica de Herman Melville, foi o verdadeiro divisor de águas e apesar de ter lido três vezes em momentos diferentes da vida, sempre me fez desatar a chorar no final. Pensava na história dos navegadores e principalmente nas baleias entre arpões em sua peleja pela sobrevivência nas profundezas daquele universo ainda tão misterioso para mim.

(arquivo da autora)

Impelida pelos romances com o mesmo tema, corri na sequência para Hemingway. Li O velho e o mar. Apesar de fascinante, foram as obras da vida real nos diários do velejador francês Bernard Moitessier e os relatos de mar de Amyr Klink que me impulsionaram a descobrir um pouco mais sobre uma vida no oceano.

Na mesma época, ainda adolescente, comecei a praticar mergulho, me juntei aos amigos fazendo mutirões de limpezas de praia na minha cidade natal, e ficava impactada com a quantidade de lixo que via nas trilhas das praias selvagens que eu mais amava.

Eu tinha muito medo em falhar como ser humano. Queria fazer algo diferente com a minha vida. Ficava matutando como que eu conseguiria realizar a fantasia de mulher aventureira nos mares. E se conseguisse, mas enjoasse no mar? Aprenderia a navegar em segurança?

Apesar de ter o mar muito presente na minha vida, eu só conseguia lembrar do Amyr Klink relatando seu dilema, com o qual não pude deixar de me identificar, no livro Não há tempo a perder. Eu nunca tinha navegado no mar, não era excelente nadadora, e como ele também “levei um caldo, comi areia e quase morri afogada”, lá no Arpoador quando tinha uns 9 anos de idade.

Em minha primeira missão embarcada, atravessando toda a costa do Brasil, do sul ao norte do país em defesa da Amazônia, percebi que ali era o único lugar possível para estar. Me veio uma clareza, sem precisar buscar respostas, de que o mar era a minha casa. Eu só não sabia disso. Fui aos poucos me adequando aos treinamentos marítimos, respeitei todos os processos em seu devido tempo.

Desde aquela versão da menina que sonhava um dia desbravar o mar e o mundo, pegando nas cordas e sentindo o vento bagunçar os cabelos, até hoje, uma mulher profundamente conectada com o estado de movimento contínuo, aprendi a ter uma nova relação com o tempo.

(arquivo da autora)

Ali, à deriva ou em curso, me permitia estar presente. Tinha uma rotina que me fazia olhar o mundo inteiro sob a perspectiva de uma astronauta observando a Terra em órbita. Cada detalhe da vida no mar era novo, impressionante, único.

Descobri que a natureza é quem manda e pauta os meus dias. Se a chuva chega, eu capto a água doce, e me recolho. Se vem o sol, faço chips de banana que ficam prontos de 2 a 3 dias expostos do lado de fora do barco, junto aos painéis solares. Muitas vezes cozinho, lavo a louça e tomo banho com a água do mar. Não há espaço para desperdício. O lixo é reinventado a bordo de forma criativa sempre que possível.

Dos sete anos literalmente em sete mares, além da minha jornada em defesa do meio ambiente a bordo de navios em diferentes organizações, lembro com candura também da fase em que tive a minha própria casa flutuante. No Papaya, batizado com o nome da minha fruta predileta, velejei da Malásia à Turquia, passando pela famigerada costa da Somália, sendo até mesmo abordada por piratas.

Um dos momentos mais mágicos foi quando nadei com baleias jubarte nas ilhas do Pacífico Sul, em Tonga. Embaixo d’água, eu as via e ouvia o seu canto. Só não imaginava que a onda sonora viria chocar com o meu corpo, fazendo a minha caixa torácica vibrar naquela emocionante cantoria subaquática. Ali, meu corpo inteiro levitou em uma frequência “pinkfloydiana”. 

Dos desafios mais marcantes: os dois anos de Antártica em missões contra baleeiros japoneses, um trabalho de investigação disfarçada nas Ilhas Faroé (destino também explorado por Amyr Klink) para impedir a matança baleeira e a tentativa de resgate de três velejadores noruegueses, em meio ao Oceano Austral, depois de uma chamada de emergência, a “mayday call”. Estavam a ponto de naufragar nas redondezas da baía de Shackleton. Quantas emoções!

(arquivo da autora)

No mar, aprendi a nascer e a morrer muitas vezes. Dentro e fora de mim. Com as ondas colidindo com o casco, com o cheiro da costa que se aproximava, nas circunstâncias mais sensíveis ao trato humano. E, principalmente, no reconhecimento do meu real tamanho entre tempestades de mar, neve, areia, atravessando recifes de corais, sendo tomada entre ondas com mais de 20 metros de altura, sem conseguir mesmo ver o horizonte, e confrontando temerosas embarcações de pesca ilegal pelo Mar Mediterrâneo.

Não é uma jornada particularmente fácil, mas é recompensadora. Aprendi que não preciso de muito para ser feliz. Que é possível ter o essencial num espaço pequeno, levando meu corpo de acordo com os ventos e as correntes. E quando vinham os desafios, sentia o caos físico e mental retomando, na medida do possível, a calmaria. A vida é um vai e vem entre o caos e a calma. No mar, também é assim.

No filme “Poesia Sem Fim” de Alejandro Jodorowsky, há um momento em que ele pergunta a si mesmo, olhando através de um espelho a sua versão quando jovem e já velho: “Qual o sentido da vida?”, ele, jovem, pergunta. E a resposta dele mesmo, já velho: “A vida não tem sentido, viva!” É aqui e agora. O mar me equilibra e transborda aqui dentro, nesse imenso amor que tenho pela vida. Sigo descobrindo algo novo a cada chegada e partida. Com minha sagrada liberdade em algum cais do mundo.


(*) Barbara Veiga é fotógrafa, documentarista com experiência internacional em movimentos socioambientais e também trabalhos autorais, e navegou da Amazônia à Antártica. É autora do livro Sete anos em sete mares e cofundadora da Liga das Mulheres Pelos Oceanos.