Sobre a poesia de Hilda Hilst: reconstruindo o cânone

por Taís Bravo (*)

Descobri a poesia de Hilda Hilst quando estava na faculdade e um amigo me emprestou seu exemplar de Do Desejo. Nessa época, a poesia ocupava um lugar à margem na minha vida. Eu lia e escrevia poemas com alguma regularidade, mas era algo que acontecia entre as minhas vivências acadêmicas, como um descanso ou uma fuga. Quase como um hábito inevitável, eu me pegava gastando a página dos meus cadernos com uma escrita que subitamente nascia; um verso puxava o outro em um movimento viciante. Me dava prazer, mas eu não ia além dessa sensação. O que eu escrevia se parecia mais com anotações do que com poemas e as minhas leituras também não se demoravam, eu pinçava um verso ou outro sem nunca me debruçar completamente sobre um livro de poesia.

Até esse encontro. Foi a partir de Hilda Hilst que percebi que eu poderia ir um pouco mais fundo enquanto alguém que escreve e lê poemas, porque descobri que a poesia pode ser um meio, um lugar com condições particulares, para pensar e ressiginificar a vida. Entendi, principalmente, que escrever poesia pode envolver uma investigação tão rigorosa e conceitual quanto as que me rodeavam na faculdade de filosofia.

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Como uma mulher que escreve, a biografia de Hilst é marcada por mitos que geralmente a limitam em uma estreita trajetória de jovem imoral, que chocava a sociedade e seduzia toda sorte de artistas, até uma mulher excêntrica que, na idade madura, escolheu viver reclusa, cercada de cachorros, misticismos e com um pé na loucura. Acho improvável dizer quem realmente foi Hilda Hilst e talvez seja mais relevante nos atermos à inequívoca continuidade que existe em sua história: seu comprometimento com a literatura.

Nascida em 21 de abril de 1930 (uma taurina é uma taurina né, amores), Hilda Hilst produziu em vida mais de trinta livros (de poesia e prosa poética), além de oito peças de teatro. Em seu trabalho, ela rumina as mais eternas e delicadas questões humanas a partir de um traçado que intercala as relações entre sagrado e profano, amor e desejo, morte e materialidade, como uma busca poética. Mas essa busca não parece mirar em explicações, Hilst escreve para criar um modo de sustentar os impasses de ser feita de uma carne humana que é, ao mesmo tempo, divina e deteriorável; de amar, conhecendo a inevitabilidade das partidas, e de ser, sabendo que um dia terá apenas sido. Através de sua escrita, ela não propõe uma saída, mas nos convida a conviver com esses absurdos.

A investigação de tais temas permeia não só as obras de Hilst, mas também suas leituras, que iam além da literatura e passavam pelas mais diferentes áreas de pesquisa — como filosofia, psicanálise (dos muitos retratos que constam em sua antiga morada, a Casa do Sol, há um de Freud ao lado de um de Kafka), física, entre outros campos científicos — e envolviam tanto escritoras e escritores clássicos quanto seus contemporâneos. Apesar do mito de ser reclusa, Hilst mantinha uma intensa troca criativa com muitos artistas e, inclusive, acolhia alguns em sua casa, como foi o caso de Caio Fernando Abreu.

Hilda lê Lygia Fagundes Telles (foto de divulgação)

A dedicação de Hilst à literatura ia para além de sua criação e se estendia para um cuidado com a leitura. Talvez seja justamente por esse afinco que tantas vezes ela tenha demonstrado uma profunda mágoa por não ser lida. De fato, a obra de Hilst não recebeu da crítica literária a devida atenção que merecia; a tiragem de seus livros era restrita a um pequeno número e muitos diziam não compreendê-la. E Hilst queria ser lida, talvez não em grande quantidade, mas lida por leitores que realmente se interessassem pela busca construída em seus versos. Em muitas entrevistas, ela reclama da falta de interesse pela sua obra, ao mesmo tempo em que diz que nunca escreve pensando em seus possíveis leitores. Entendo essa contradição como um desejo que norteia a escrita que, de fato, não depende de interlocutores para se realizar, mas que, ao fim, sempre espera por esse fortuito encontro.

“Fico besta quando me entendem”, era o que ela dizia, se vangloriando da fama de escrita difícil e denunciando uma vontade de compreensão. Hoje acredito que ficaria embasbacada, porque finalmente sua obra é publicada, lida e estudada com primor e admiração. Para mim, Hilda Hilst é uma das maiores poetas brasileiras e um grande exemplo de porque é importante ampliarmos nossas possibilidades de leitura e reconstruir o que conhecemos enquanto cânone literário. Não podemos deixar de conhecer as poetas de nossa literatura, sejam as que fazem parte de nossa memória, sejam as que estão escrevendo agora.


(*) Taís Bravo é escritora e uma das criadoras da iniciativa Mulheres que Escrevem, onde este texto foi originalmente publicado. Vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura da UFRJ, desde 2018 pesquisa poesia brasileira contemporânea escrita por mulheres. É autora de “Sobre as linhas extintas” (Editora Urutau, 2018), “Houve um ano chamado 2018” (Macondo Edições, 2019) e “Ato para desembrulhar o vício” (7 Letras, 2019).


Este texto é uma homenagem da Tordesilhas Livros aos 90 anos de Hilda Hilst. Você pode ler mais sobre a autora no livro Eu e não outra: a vida intensa de Hilda Hilst.

FICHA TÉCNICA
Livro: Eu e não outra: a vida intensa de Hilda Hilst
Autor: Laura Folgueira e Luisa Destri
Editora: Tordesilhas Livros
Páginas: 232