Por trás da máscara: a política da Morte Vermelha

por André Araujo (*)

Curioso como certos contextos podem transformar as mais simbólicas alegorias em relatos quase realistas. É o caso do conto A máscara da Morte Vermelha, publicado originalmente em 1842 pelo escritor estadunidense Edgar Allan Poe¹. É desses contos que insistem em se manter relevantes; por um lado, pelo sentido quase universal de horror que consegue transmitir, e, por outro, pela cuidadosa forma com que Poe relaciona esse senso de desespero com questões políticas que continuam atuais.

O conto, como poderíamos esperar, trata de uma epidemia mortal. Mais especificamente, do modo como o príncipe Prospero, realeza de uma cidade da Europa, decide lidar com o avanço da praga chamada de “Morte Vermelha”. Prospero, para se proteger, chama seu séquito de seguidores e influenciadores locais para se isolar em seu castelo, longe do contágio da praga. Ao longo de meses, eles vivem como se nada estivesse acontecendo fora dos portões do castelo: organizam banquetes, fazem bailes e festas, vivem a celebração da possibilidade de se isolar da doença.

Prospero, então, decide organizar um grande baile de máscaras, decorando com uma cor e um tema cada um dos cômodos do castelo, por onde os convidados podem circular livremente. A sala mais distante, no final do corredor, é temida por todos: é a sala negra, onde um relógio badala a cada hora e apavora todos os presentes. Em determinado momento do baile, surge um convidado inesperado usando uma máscara representando a contaminação pela Morte Vermelha. Passando do desconforto ao verdadeiro pavor, todos os presentes contraem a doença; até que Prospero, em um ato desesperado, tira a máscara do convidado e é surpreendido com o rosto vazio da própria morte.

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Ilustração de Harry Clarke

A escolha de centrar a narrativa da praga no príncipe, o bilionário da época, é precisa. Afinal, Prospero tem uma consciência muito moderna de como agir em um período de colapso da economia. Em primeiro lugar, protege os seus. Prospero é a economia de sua cidade. É preciso salvar aqueles que geram empregos e riqueza; ou seja, os mais ricos. Se Prospero e os seus sobreviverem, a cidade sobreviverá – ao menos, do ponto de vista econômico. Por isso, não seria estranho que Prospero pensasse: “O pior já passou, agora é só esperar a praga fazer o que tem de fazer e tudo poderá voltar ao normal.” Enquanto esperam, sem saber o que acontece fora dos portões do castelo, Prospero e os seus festejam a vida.

Mas há também um impulso pela diferença presente na atitude de Prospero. Pois a praga, para o bem ou para o mal, é excessivamente democrática. Todos são passíveis de contraí-la, sejam ricos, sejam pobres. Alguns têm mais recursos para escapar, mas, no final das contas, somos todos iguais aos olhos da Morte Vermelha. Claro que, para alguém com uma consciência de classe tão arguta quanto Prospero, é necessário que haja um dispositivo de diferenciação, pois uma classe é definida por aquilo que a outra não é (na Alemanha, um senhor barbudo elaboraria essa mesma teoria, sob a forma da dialética, curiosamente no mesmo ano em que esse conto foi publicado). Enquanto o povo sofre a perda de parentes, agoniza em um corredor de hospital ou busca formas de sobreviver, os nobres do castelo dançam, festejam, comem churrasco. A alegria é a prova dos nove, que é a antítese das lágrimas daqueles que não têm o direito de estar no castelo.

O conto de Poe se estrutura simbolicamente, em uma primeira leitura, como uma analogia sobre a inevitabilidade da morte. Cada um dos quartos poderia representar uma fase distinta da vida, com o último quarto, o temido quarto com o relógio que não para de badalar, como a lembrança de que mesmo o mais rico dos nobres, o mais bem sucedido dos bilionários, ainda não pode comprar a sua escapada da morte. Para alguém que pode comprar e obter tudo e qualquer coisa, não admira que a morte seja temida a ponto de obrigá-lo a tomar as mais radicais posições – por exemplo, fazer uma festa em meio a uma pandemia generalizada. Talvez o relógio não represente apenas a inevitabilidade da morte, mas também conte o tempo passando para o fim da festa burguesa.

Foto: NotaTerapia

Não podemos esquecer da grande ausência do texto de Poe, da parte do iceberg que está embaixo d’água: os camponeses e trabalhadores do feudo de Prospero. São eles que morrem aos milhares, vítimas da Morte Vermelha, e testemunham o isolamento de seu príncipe. Por que não se revoltam? Talvez estejam cansados ou preocupados demais com sua própria sobrevivência; talvez concordem com Prospero que seja preciso cuidar dos seus, usar todo o recurso disponível para escapar e se preservar. Talvez pensem também, aí junto de Prospero, que, em algum nível, precisam dele para sobreviver. Mas se os camponeses pensam em Prospero, o contrário não é verdade. Assim como todo super rico, Prospero tem fantasias de cuidar de seu povo, ser um grande filantropo, apenas para dar as costas a ele quando sua ajuda é realmente necessária. Prospero não pensa em como acabar com a epidemia, em como mitigar seus efeitos sobre os mais pobres, em como usar seus recursos para cortar o mal pela raiz e isolar todo o seu povoado. Prospero decide se isolar, deixar o povo a sua própria sorte, para depois reerguer-se triunfalmente sobre as ruínas da devastação.

Mas Prospero e os seus se esquecem de um pequeno detalhe: ninguém está completamente isolado, especialmente os mais ricos. Numa festa das proporções do baile de máscaras, o leitor atento não pode deixar de se perguntar: quem cozinha? Quem limpa? O isolamento dos influenciadores medievais é apenas aparente, as coisas não funcionam sozinhas. Toda grande demonstração de riqueza traz consigo um exército de invisíveis, que, com seu trabalho, mantêm de pé as opulências da nobreza. Se os invisíveis e não-nomeados nunca tiveram voz, nunca puderam se expressar diretamente, em um período tão democrático quanto o de uma pandemia, sua presença é sentida da forma mais violenta. Não é pela revolução que a festa termina; é por um erro de cálculo, por uma cegueira, já costumeira, que faz com que a festa esqueça da estrutura sobre a qual está sustentada. A praga não se espalha pelo ar, ela vem na forma de um convidado desconhecido, mas que sempre esteve ali. A Morte Vermelha, no conto de Poe, não deixa de ser uma máscara para o grito violento dos desvalidos, dos esquecidos, dos silenciados. Uma hora, a conta vem.

¹ O conto faz parte da antologia Contos de imaginação e mistério, publicada pela Tordesilhas Livros.


(*) André Araujo é doutor em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É professor, pesquisador de literatura especulativa e escritor.