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19/10/2015 - A fome de Rodolfo Tefilo na poca

Quem perde tempo nas redes sociais tentando entender por que o Brasil como deveria investir algumas horas de sua vida na leitura do romance A fome, de Rodolfo Tefilo. Lanado em 1890, foi a primeira obra de fico brasileira a tratar da seca no Nordeste. Serviu, no sculo passado, de exemplo para toda a literatura regionalista que somos obrigados a ler na escola – Rachel de Queirs, Jos Lins do Rego ou Graciliano Ramos. Tefilo, um cearense que dizia ter nascido em Salvador “por engano”, nunca foi colocado no mesmo patamar desses autores. Mas deveria. Foi ele quem criou a imagem do retirante que se cristalizou em nossa mente: a vtima indefesa do destino que foge da seca com a famlia para sobreviver. A fome uma narrativa ficcional em torno da maior seca do sculo XIX, entre 1877 e 1879, que matou, de acordo com os livros de histria, 500 mil pessoas, ou 4% da populao do Cear.

O livro descreve os eventos em tons rudes, com cenas de violncia, assassinatos e at canibalismo entre integrantes da mesma famlia. Tudo narrado de modo cru, no linguajar naturalista comum literatura da poca. Alm de escritor, Tefilo foi tambm farmacutico e no economiza termos cientficos para descrever os efeitos da seca no organismo, as doenas, chagas e a epidemia de varola que tomou conta do Cear. Foi criticado por pintar um cenrio dantesco, considerado de mau gosto, principalmente pela descrio to detalhada de cenas to repulsivas. Nos dias de hoje, seu livro nada tem de chocante. O leitor contemporneo estranhar mais o uso de palavras como “vagido”, “opparo” ou “lupanar” do que as descries e termos tcnicos. E h, por toda parte, o onipresente “flagelo”, palavra que se transformou em lugar-comum para descrever as secas do Nordeste. Tefilo foi o criador dessa imagem to brasileira, o “flagelo da seca”.

Os flagelados, pobres-diabos que nada podem contra a fora do destino e contra a insensatez dos mais poderosos, no so o nico chavo intelectual presente no livro. Esto l todas aquelas figuras tpicas que nos definem como nao. O funcionrio pblico corrupto, inescrupuloso e lascivo, que usa o poder que tem sobre a caridade distribuda pelo governo para roubar e exercer o domnio absoluto sobre famlias de retirantes – “furtar do governo no furtar”, diz a certa altura. Urde maquinaes que favorecem seus interesses pecunirios e sexuais e, como forma de chantagem, cria at verses particulares do Bolsa Famlia e do Minha Casa Minha Vida. O empresrio ricao, insensvel ante a dor humana, que negocia escravos pensando apenas no lucro, cujo filho mimado leva a me a tortur-los e a maltrat-los sem d, em nome de seus caprichos. O jogador descontrolado, capaz de torrar no pano verde, em questo de minutos, a fortuna que poderia salvar a famlia do primo e a sua – e depois se v obrigado a fugir de vergonha. A menina casta e caridosa, que precisa escapar dos sedutores e ajudar a salvar a vida dos familiares atacados pela varola. O padre bondoso, exemplo de retido moral, capaz de resistir s tentaes da carne, de sobreviver mngua e de prestar aos pobres flagelados socorro material e espiritual, sem jamais se queixar. E nosso heri, Manuel de Freitas, um pequeno agricultor do interior do Cear que chegara a ocupar um posto de coronel, agora obrigado a abandonar sua fazenda, a vender seus escravos e a fugir com a famlia em busca de uma vida melhor. Um exemplo de carter, que resiste a aceitar a caridade, sobretudo quando feita com segundas intenes, reza pela salvao e busca garantir o sustento da famlia de modo honesto, por meio do trabalho, enquanto a seca vai ceifando vidas e mais vidas a seu redor.

Como literato e cientista, Tefilo sempre lutou contra o atraso e a indiferena das autoridades aos males que dizimavam a populao cearense. Seu bigrafo, o jornalista Lira Neto, conta que ele chegou a produzir uma vacina num laboratrio no fundo de sua casa, para ajudar a combater uma nova epidemia de varola no incio do sculo XX. Polticos locais no gostaram e sabotaram a iniciativa. A vacina, aprovada pelo prprio Oswaldo Cruz, foi depois adotada em outros Estados, onde contribuiu para erradicar a doena, enquanto a epidemia ainda grassava em Fortaleza. Tefilo tambm foi inventor da cajuna, bebida popular no Nordeste no combate ao alcoolismo. A viso simplista e cheia de lugares-comuns de sua literatura retratava aquele mundo que conheceu e procurava denunciar. Desde ento, o Brasil e o Nordeste mudaram muito. Mas a imagem que fazemos de ns mesmos infelizmente continua a mesma – nas relaes de compadrio, na defesa acanhada de corruptos e criminosos que ajudam os pobres, na idealizao religiosa da misria e na recusa teimosa em aceitar a educao e o trabalho como caminhos para o avano da nao.

Confira a matria completa online no link:http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/helio-gurovitz/noticia/2015/10/o-flagelo-que-ha-seculos-grassa-no-brasil.html

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