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10/06/2016 - \"O pomar das almas perdidas\" no Jornal Rascunho

Leia a matria completa no site:http://rascunho.com.br/as-mulheres-e-a-guerra/

Em Trs guinus, livro escrito em 1936 no qual Virginia Woolf reflete sobre a participao das mulheres na guerra, a autora afirma que “homens fazem a guerra. Homens (em sua maioria) gostam de guerra, pois para eles existe ‘uma glria, uma necessidade, uma satisfao em lutar’ que as mulheres (em sua maioria) no sentem ou no desfrutam”.

Se a guerra um jogo de homens, como a histria tem nos mostrado ser, as mulheres h muito so as maiores vtimas de suas disputas. As narrativas que versam sobre a guerra, seja observando a glria do vencedor, seja no lamento dos que perderam, poucas vezes abordam o sofrimento das mulheres, que se torna ainda maior em situaes de conflito e independentemente a qual lado pertenam. Seus corpos so o palco dessas disputas por poder, a violncia sexual passa a ser uma arma de guerra que tem por objetivo humilhar e destruir a “honra” dos homens e das famlias, corroborando a ideia de que as mulheres so propriedade de algum. Nos cenrios de guerra, frequentemente a voz das mulheres silenciada e invisibilizada, e elas mesmas so soterradas em sua prpria dor.

Ainda que essas histrias de violncia continuem a existir, no romance O pomar das almas perdidas, a africana Nadifa Mohamed d voz a algumas dessas mulheres em plena guerra civil na Somlia, nos anos 1980, trazendo a perspectiva feminina para narrar o encontro de trs mulheres em um contexto de guerra. Mas o que se retrata aqui no so os eventos brbaros que prontamente imaginamos ao falarmos em guerra, e sim a violncia cotidiana contra as mulheres que certamente acontece em qualquer lugar do mundo. Nesse sentido, o romance amplia as possibilidades de reflexo sobre o assunto, que consegue ser apresentado com uma linguagem por vezes potica, capaz de construir imagens belas e sensveis a partir de um cenrio em runas.

As protagonistas do romance so de trs geraes e classes sociais diferentes vivendo sob o regime ditatorial. Deqo, Kawsar e Filsan so as trs protagonistas deste romance que fala das muitas perdas sofridas por essas mulheres e de todas as violncias que fazem parte dos seus dias. por trazer a perspectiva feminina, criando personagens complexas que tentam compreender seus prprios sentimentos e aes e demonstram capacidade de agncia, que o romance de Nadifa Mohamed se engrandece.

Aos nove anos, Deqo uma menina nascida em um campo de refugiados. Abandonada pela me logo aps o nascimento, desde cedo aprendeu a cuidar de si mesma. Contando com a boa vontade de algumas pessoas que trabalhavam no campo de refugiados, ela consegue sobreviver, mas o que mais deseja uma famlia, alm de compreender por que a me a deixou. Com a promessa de que vai ganhar um par de sapatos, artigo muito desejado para quem perambula pelas ruas diariamente em busca de comida, Deqo aceita danar na festa de aniversrio da revoluo que colocara no poder uma ditadura militar, apesar de no compreender por que as pessoas vivem brigando ou o que de fato acontece ali. Para ela, difcil mesmo viver no campo de refugiados, sem famlia, sem comida e sem perspectivas. Diante do estdio repleto de pessoas, a menina se desconcentra e erra a coreografia da dana, sendo punida por isso.

Enquanto o pas mergulha em uma sangrenta guerra civil, o destino de trs mulheres se encontra demonstrando a violncia que afeta todas as mulheres, independentemente de classe social, idade, etnia ou posio ideolgica.

Grande encenao

Kawsar uma mulher de quase sessenta anos, viva de um policial respeitado e em luto pela morte da filha adolescente que lutou contra o regime junto aos demais estudantes e no sobreviveu aos traumas vividos na priso. Por ter dinheiro, vive em condies um pouco melhores que as demais mulheres da vizinhana, que se ajudam e se apoiam constantemente, mas todas so obrigadas a participar da festa de aniversrio da revoluo no estdio da cidade, j que seriam presas caso se negassem a celebrar o ditador, pois “ele precisa de mulheres que o faam parecer humano”. Toda a cena da festa uma grande encenao, a falta de liberdade e a represso do que viver em um regime ditatorial ficam evidentes.

verdade: elas so idnticas, s que Maryam tem vinte e poucos anos, Zahra est na faixa dos quarenta, Dahabo e Kawsar quase chegando aos sessenta, e a pobre Fadumo uma encurvada com mais de setenta. Parecem ilustraes de um livro didtico, todas iguais nas mesmas roupas, com apenas algumas rugas no rosto ou as costas curvadas para marcar a idade. desse jeito que o governo parece quer-las — cartuns sorridentes sem nenhuma exigncia nem necessidade prpria. Agora esses cartuns ganharam vida — no arando a terra, tecendo ou trabalhando em uma fbrica como nas notas de xelim, mas marchando penosamente para uma celebrao a que so obrigados a comparecer.

Filsan uma jovem soldado, filha de pai militar, que tem se dedicado unicamente sua carreira no exrcito, algo no qual acredita, certamente por influncia do pai, de quem sempre quis conquistar aprovao. Apesar de sua competncia, a vida no exrcito no fcil para uma mulher, dado o sexismo que ainda predomina nas instituies militares. Filsan sente raiva a cada vez que os colegas a provocam com comentrios insinuantes ou olham para o seu corpo como se isso fosse a nica coisa que existisse. Apesar de estar em uma situao de poder diante de Deqo e Kawsar, logo percebemos que Filsan tambm est sujeita s mesmas violncias de gnero, sendo desrespeitada em seu trabalho, pelo seu pai em sua famlia, e seu “poder” apenas um poder emprestado, pois est sempre em posio subalterna. A raiva que ela extravasa de forma violenta em diversas situaes reflexo dessas violncias contidas e silenciadas ao longo de sua vida. Apesar disso, sua solido revela o quanto ela tambm j sofreu com suas perdas.

As trs mulheres se encontram no dia da festa da revoluo no estdio em Hargeisa, onde grande parte do romance ambientado. Ao ver Deqo ser espancada pelos policiais por ter errado a dana em homenagem ao ditador, Kawsar decide intervir, pois viu na cena “um momento de verdade dentro de uma fico”. Mesmo correndo riscos, ela decide fazer o que julga certo, j que Deqo era apenas uma criana em pnico diante da multido. Ento ela presa por Filsan, a jovem soldado que assusta as demais pela agressividade que demonstra. Esse encontro afetar a vida das trs personagens, cada uma apresentada separadamente no segundo captulo, e elas s se reencontram no captulo final e de forma surpreendente.

So muitas as violncias contra as mulheres retratadas por Nadifa Mohamed em O pomar das almas perdidas. Para citar apenas dois exemplos, podemos considerar a violncia que logo cedo as meninas passam a temer (por serem mais suscetveis do que os homens no campo de refugiados) e tambm a violncia que Kawsar relata sobre a mutilao genital feminina, realizada ainda na infncia, algo frequente e reproduzido sob a mscara da tradio mesmo nos dias de hoje, que afeta para sempre a sade e a sexualidade da mulher. No entanto, o pomar que resiste em meio ao caos da guerra, transformando as dores em novos frutos, o melhor smbolo para a histria construda por esta jovem escritora. Mais do que um livro sobre a vida em um regime militar, O pomar das almas perdidas uma obra tocante sobre a condio feminina.

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