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26/01/2016 - Melancolia no Estado

O jornal O Estado de S.Paulo entrevistou o escritor Jon Fosse, autor de "Melancolia", recentemente publicado pela Tordesilhas. Na entrevista, Fosse fala sobre literatura e a influncia de Samuel Beckett sobre sua obra, entre outras coisas.

Confira: http://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,jon-fosse-explora--em-melancolia--as-regioes-mais-sombrias-e-perigosas-de-um-artista,10000006538

Jon Fosse explora, em Melancolia, as regies mais sombrias e perigosas de um artista

Noruegus exibe o valor de sua prosa hipntica em livro

O noruegus Jon Fosse constantemente lembrado como virtual vencedor do prmio Nobel de literatura - poeta e ficcionista, o escritor de 56 anos hbil em descrever cenas desprovidas de ao, em que a conjugao dos verbos parece ser a nica pista para distinguir passado e presente. Tambm dramaturgo, Fosse um dos autores mais encenados na Europa, graas a peas em que, muitas vezes, os dilogos so rarefeitos e marcam a repetio incessante de ideias.

No Brasil, Fosse j teve diversos espetculos montados, como Noturnos, Sonho de Outono, Algum Vai Vir, Um Dia No Vero, O Nome. Agora, a vez da literatura, com o romance Melancolia (Tordesilhas). Aqui, ele parte de um personagem real, o pintor Lars Hertervig (1830-1902), para oferecer um instigante retrato da mente perturbada de um artista.

De origem pobre e vivendo no interior da Noruega, Hertervig logo descoberto por um mecenas como um pintor de talento, o que lhe garante a chance de estudar belas-artes na Alemanha. O que seria um tranquilo caminho de sucesso se transforma em um trajeto tortuoso, graas s terrveis inseguranas e delrios incapacitantes do jovem artista.

Com uma prosa detalhada nas mincias, Fosse descreve um dia da crise de Hertervig e como isso vai repercutir na sua vida e na de sua irm. Sobre o assunto, Fosse respondeu, por e-mail, s seguintes perguntas.

O senhor acha que o dio uma espcie de motor que impulsiona a literatura? Quero dizer, o mal um aliado da literatura?

Para mim, a literatura existe quando um contedo e uma forma criam um universo nico, governado pelas prprias leis. Quando isso ocorre, contedo e forma se tornam inseparveis, como alma e corpo no ser humano. Se voc pensa em uma alma sem um corpo, um fantasma, parece estranho, ou ento um corpo sem alma, um cadver. O mesmo ocorre com a literatura. Para mim, esta unidade, este universo, se expressa com uma voz silenciosa, uma voz que poderamos chamar de alma da literatura. Para a literatura existir, voc precisa usar tudo o que existe como contedo e forma e, ao mesmo tempo, transformar tudo em uma unidade com uma fora transcendental. O bom e o mal so conceitos; a literatura no feita de conceitos, ela d forma experincia, vida. Atos que so certamente malficos pertencem literatura, como tambm atos de amor.

Com seus silncios pesados e um dilogo fragmentado, algumas das suas obras lembram tanto Samuel Beckett como Harold Pinter. O senhor tambm v tais similaridades?

Beckett mais ou menos meu pai literrio, juntamente com o escritor noruegus Tarjei Vesaas. E, como frequente, voc se rebela contra seu pai. Minha primeira obra se chamou Algum Vai Vir, uma espcie de polmica contra Esperando Godot, naturalmente. O fato de Beckett estar to prximo tem algumas similaridades tambm em termos de experincia e personalidade. Mas, para ser honesto, no acho absolutamente que um problema. Para mim, a literatura tem uma fora transcendental, de certa maneira vista como uma espcie de reconciliao, de paz. Minhas pausas e as pausas de Beckett so muito diferentes, minhas pausas com frequncia dizem o oposto. Pinter nunca foi uma influncia, uma vez que nunca li ou assisti a qualquer das suas peas quando comecei a escrever para o teatro. Mas hoje sim - suas peas sempre esto repletas de surpresa, medo, as minhas quase nunca. Mas Pinter sofreu influncia de Beckett, sem dvida, como tambm foi o meu caso.

Como o senhor define que uma histria ser prosa ou teatro?

Simplesmente, comeo a escrever e, se meu objetivo uma pea, assim que escrevo, se quero que seja uma prosa, a mesma coisa. Alis, muitas pessoas afirmam que no importa se voc escreve uma pea ou uma prosa, no h diferena. Mas acho que tem. A prosa, pelo menos da maneira que trabalho, tem muitas limitaes, com certeza no tantas como uma pea de teatro. Quando se trata de fico, de alguma maneira tenho de tornar as regras do universo da escrita mais pessoais. Isto naturalmente ocorre durante o prprio ato de escrever. No possvel formular estas regras de maneira explcita, elas so muitssimo complicadas. Quando escrevo, ouo. E, num determinado momento, sinto que a pea ou o trabalho de prosa est ali, pronto, s tenho de colocar no papel o mais rpido possvel, antes que desaparea. A propsito, estou escrevendo apenas fico no momento e no tenho planos para escrever uma nova pea.

Na sua opinio, os romancistas tm uma obrigao moral com seus personagens e leitores?

A nica obrigao escrever bem, e do modo mais autntico possvel. Adicionar desgnios morais, religiosos e polticos contrrio aos elementos fundamentais da arte: isto tem de acontecer. Como uma ddiva. E, neste caso, atende tambm sua exigncia tica. Escrever mal no s isto, falta de moral, de certa maneira, um pecado.

Hoje, o jornalismo narrativo americano se assemelha muito fico nos livros e extrai sua inspirao do arco narrativo clssico. O senhor acha que ainda haver lugar para a escrita de fico deliberadamente literria?

Esta mistura do ficcional com o factual muito comercial e um modo imprprio de escrever. No simpatizo com isto. Ou voc escreve como artista, e cria, ou escreve como um estudioso, um historiador, um jornalista. Existe um elemento de fico em tudo o que escrito, mas, no jornalismo, o indivduo tem de tentar limitar isto o mximo possvel. Naturalmente, existe um futuro para a literatura como arte. Prosa, poesia, drama. Mas duvido que exista um futuro, ou um futuro honesto, em mentir, fingir que verdade. uma mentira. A literatura mentir de maneira que seja verdade.

Em que aspectos o senhor acha que a narrativa literria deve se afastar ou mudar quando se trata de fazer jornalismo?

Jornalismo jornalismo. Literatura literatura. Esta distino sempre existir e estou certo que veremos a diferena de modo mais claro no futuro.

Hoje, a Histria est muito interessada em detalhes. A literatura est assumindo seu lugar?

Acho que a Histria tem de se preocupar com os detalhes, preciso focar no que realmente aconteceu e fazer uma representao do fato. Naturalmente, isso implica interpretao, um pouco de fico, se preferir, mas o historiador ter de ser o mais acurado possvel. A Histria necessria, o jornalismo necessrio, como tambm a literatura. Mas no so absolutamente a mesma coisa. E, para mim, o chamado romance histrico uma mentira, uma impostura. E me desagrada muito.

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